terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O país mais belo do mundo



Já faz muito tempo que não escrevo. Estive ocupado com o TCC da pós-graduação até esta última semanae tenho tido um grande acúmulo de trabalho recentemente; época de fechamento de ano, auditorias internas em clientes, o anuário da NTC&Logística, tabulação estatísticas do Prêmio Fornecedores do Transporte... enfim, o tempo que eu tenho é muito mais voltado para o lado profissional do que para o lado pessoal.


Porém, agora que estou encontrando um pouco de tempo disponível, quero escrever um pouco sobre as experiências que tive na Europa, recentemente. Tirei um período de férias de 20 dias e viajei por alguns países, dos quais falarei brevemente, mas vou reservar um tempo maior para um país em específico.


O primeiro país que conheci foi a França, e também o país onde eu passei mais tempo. Visitei Paris, que realmente merece o epíteto de “Cidade-Luz”, porque pela cidade inteira se encontram muitas das grandes riquezas da história mundial. Passei um dia inteiro visitando o Museu do Louvre, também subi no alto da Torre Eiffel – o local onde senti a maior ventania de toda a minha vida, visitei a Montmartre, a Avenue des Champs Elysées, o palácio de Versailles – que é de uma grandeza incomensurável; enfim. É verdade que o parisiense é um pouco seco no tratamento, mas não me importei com isso, porque o mundo inteiro sabe que eles são assim; e nem mesmo isso tira o encanto da cidade. O famoso metrô de Paris também tem uma eficiência de deixar qualquer paulistano impressionado. Não é muito confortável nem mesmo bonito, mas é extremamente eficiente e em qualquer lugar da cidade é possível chegar com, no máximo, uma conexão. Isto sem contar que há um relógio fazendo a contagem do tempo entre uma composição e outra, que chega pontualmente na hora – nem um segundo de atraso.


Fora de Paris, também visitei o Vale du Loire – fiquei hospedado em Amboise, numa pousada na frente do Château d'Amboise, onde está sepultado o corpo de Leonardo da Vinci. Também visitei os castelos de Chenonceaux e de Chambord, além do Clos Lucé. O tamanho do luxo e da riqueza destes lugares impressiona qualquer um, e aí nós começamos a observar de perto as razões por ter eclodido a Revolução Francesa. O luxo é muito maior do que qualquer um que não tenha ido até lá consiga imaginar, mas o povo da época passava fome. Lá eu tomei consciência de que todos os problemas que assolaram o mundo desde a Idade Moderna até agora decorreram, direta ou indiretamente, do esbanjamento da nobreza enquanto o povo vivia na penúria. Não era somente na França. Esse tipo de esbanjamento e concentração – inicialmente na nobreza, depois na burguesia – desencadeou todas as guerras mundiais e revoluções. Até mesmo os comunistas na Rússia ascenderam ao poder porque o czar esgotou todos os recursos do país para construir a ferrovia Trans-Siberiana. Somente nos tempos atuais as condições têm melhorado. Vemos o exemplo de desenvolvimento que é a França nos dias atuais, mas temos de lembrar que nem sempre foi assim. Apenas durante um período no século XIX (a famosa “belle époque”) e de cerca de 50 anos para cá, quando acabou a Segunda Guerra Mundial, a França gozou de prosperidade.
Outra cidade pela qual passei na França foi Limoges, onde assisti a um show – ao vivo – do violinista André Rieu. Foi um espetáculo a que há muito tempo eu tinha vontade de assistir, já que sempre fui fã dele.


Fora da França, também estive em Veneza, na Itália. Sendo eu descendente de italianos – e particularmente de venezianos, embora remotamente – tive uma sensação muito estranha por lá. Não somente pela própria organização da cidade – certamente uma das mais estranhas do mundo, pois lá somente é possível andar a pé pelas numerosas vielas pedonais, praças, pátios e galerias subterrâneas, ou então de barco, pelos numerosos canais marítimos que cortam a cidade, em meio às ruas pedonais, de modo que algumas vezes ao cruzar uma ponte sobre um canal caímos em uma galeria subterrânea ou em um pátio cercado por casas. Mas a sensação “estranha” a que me refiro foi o fato de estar tão próximo da minha origem étnica, mas ao mesmo tempo tão longe da minha casa. A saudade bateu forte lá. Ouvir falarem em italiano, jantar nos restaurantes de lá, é algo que, paradoxalmente, remete-me a São Paulo e à minha infância, na Mooca. Mas os italianos de lá não eram minha avó, meu avô, os antigos vizinhos da vila onde minha mãe foi criada... foi algo verdadeiramente nostálgico.


Também estive de passagem pela Alemanha. Cruzei todo o estado de Baden-Württenberg e da Baviera, mas não tenho muito o que falar de lá porque não tive tempo para passear por lá. Apenas cruzei cidades – aos montes: Stuttgart, Ulm, Biberach, Augsburgo, Munique, Traunstein – mas não andei dentro destas cidades. Do que eu vi, nada que tenha me surpreendido, fora pelo fato de eu não ter visto uma única casa no estilo enxaimel bávaro, como as do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. De pontos turísticos, apenas passei ao lado da Marienskirche, em Munique. De trem.
Mas o país a que se refere o título do tópico não é a a Alemanha, não é a Itália e também não é a França (embora a França, no meu conceito, credencia-se a um honroso segundo lugar). O país a que eu me refiro no título do tópico é a Áustria.


Ouso dizer que a Áustria é um pedaço de chão onde Deus escolheu para colocar tudo o que há de mais belo neste mundo, tanto em termos de paisagens naturais quanto de paisagens construídas pelo homem. Sem tirar o mérito de lugares naturais igualmente bonitos que temos em outros lugares do mundo, mesmo no Brasil, como o litoral de Santa Catarina e o Vale do Ribeira – para falar dos lugares que eu visitei, uma vez que nunca estive no Pantanal nem na Amazônia – mas acho muito difícil não se impressionar com as enormes montanhas dos Alpes, que se revestem de neve em boa parte do ano, sem contar nos belos bosques de coníferas e de caducifólias que tomam tons dourados e avermelhados no outono (época em que eu estive lá). A Áustria é um país sem saída para o mar, mas isto não quer dizer que não haja praias. Existem as praias lacustres, que margeiam lagos e lagoas espalhadas por todo o país, tais como o Mondsee – que além das praias, também estão na beira das montanhas.


Em termos arquitetônicos, também é altamente impressionante a beleza das construções. Visitei apenas três cidades: Salzburgo, Mondsee e Viena, e as três eram impressionantes. Salzburgo foi a terra onde nasceu Wolfgang Amadeus Mozart, o mais prestigiado compositor erudito de todos os tempos, e também onde viveu a família de músicos itinerantes Von Trapp, que se tornou famosa com o filme “The Sound of Music” (no Brasil, “A Noviça Rebelde”). Mondsee é uma cidade nas vizinhanças de Salzburgo cujas casas não diferem muito das casas de bonecas de brinquedos, mas que no interior das construções, principalmente da igreja matriz, nós vemos uma riqueza e uma grandiosidade descomunal.


E a cidade de Viena, capital austríaca, pode sem dúvida alguma receber o epíteto de “a metrópole dos sonhos”. Cotada entre as 10 melhores cidades do mundo para se viver pelo ranking anual elaborado pela Mercer Consulting, tem uma parte antiga formada por uma arquitetura riquíssima e bem característica. O centro histórico da cidade, do qual o ponto máximo é o Palácio de Hofburg, é um enorme calçadão e funciona como um shopping a céu aberto. Não há por lá exclusão social; mesmo a parcela mais pobre da população ainda vive muito bem. Eu visitei também a periferia vienense (onde fica o palácio de Schönbrunn); o que vemos lá são casas simples do período comunista; lembrando um pouco os conjuntos habitacionais do CDHU. Com ruas asfaltadas, limpas e sem emaranhados de fios. Há também uma parte moderna da cidade, na outra margem do rio Danúbio – tão imenso que parece um mar. O metrô (ou “U-Bahn”, como eles chamam) é composto por cinco linhas, mas que cobrem toda a cidade, e em vez de corredores de ônibus existe uma espécie de metrô leve, com três vagões, que circula numa pista com trilhos separada do trânsito principal.
Sendo historicamente a capital mundial da música clássica, a vida cultural é um sonho para todo amante da música de boa qualidade. A programação de concertos é quase diária. E além disso há programação de lazer para todos os outros gostos. A vida noturna não é das mais agitadas – o que talvez não seja uma desvantagem, já que ao menos os cidadãos podem em sua maioria dormir sem problemas de ruído causados por bares. E à noite podemos sair para onde quisermos, mesmo que ninguém haja na rua: temos a certeza de que ninguém vai nos molestar.


Porém, o que torna a Áustria um país ainda mais especial é o povo austríaco. Quem não conhece a Áustria geralmente tende a achar que os austríacos são frios, arrogantes e até preconceituosos, mas essa imagem é completamente falsa. O austríaco é até mais hospitaleiro que o brasileiro. No Brasil, em alguns casos há hospitalidade misturada com malandragem, mas lá não. Isto eu percebi logo ao chegar lá. Desembarcando em Salzburgo, perguntei informações sobre restaurantes e a recepcionista me indicou um lugar. Tive de perguntar informações a terceiros, misturando inglês e alemão. Um deles me indicou a direção por meio do cartão, mas eu não entendi. Percebendo que eu estava perdido, ele me fez entrar no carro e me deu carona até o local. Na rua, também qualquer pessoa se prontifica a dar informação – às vezes até “desenhando”, se for necessário. Eles não medem esforços para se fazerem comunicar com outros. E também fiz amizade com uma senhora da região da Caríntia, no sul da Áustria, que eu conheci no trem, no caminho para Veneza. Um mês depois de que eu voltei ao Brasil, recebi presentes que ela me enviou via correio, e até hoje trocamos mensagens.


Uma das coisas de que eu aprendi nessa viagem é a de que não adianta querermos viver num país estrangeiro, sendo que todas as nossas referências estão aqui. Por melhores que a Áustria e a França sejam, aqui estamos na nossa casa e na nossa pátria, e, uma vez que estejamos fora, sentimos saudades da nossa terra natal. Em São Paulo convivemos com várias das vantagens que existem lá: muitos lugares turísticos, boa vida cultural, oportunidades de trabalho, enfim; mas também convivemos com alguns problemas típicos daqui que acabam por nos irritar às vezes. E nesses momentos, ao comparar a qualidade de vida lá e aqui, nada mais nos resta a não ser conformar-se com o fato de termos nascido cá, e não lá...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O "Martrô" de São Paulo

Na qualidade de um "quase especialista" em Logística (falta terminar este semestre e entregar o TCC), e já que a Cia. do Metropolitano de São Paulo está sendo censurada por divulgar as notas técnicas que vão de encontro às propostas fixadas pela candidata Marta Teresa Smith de Vasconcelos, do PT, à prefeitura de São Paulo, eu mesmo vou fazer as críticas.

Antes, porém, faço uma observação sobre o quão deprimente está a disputa das eleições em São Paulo. De um lado, temos o Gilberto Kassab e o Geraldo Alckmin - outrora aliados - trocando farpas sobre a sucessão municipal. Foi legítima a candidatura do Alckmin, uma vez que ele tinha muito mais chances que o Kassab de vencer a Marta nas primeiras pesquisas do ano, mas o DEM e o próprio PSDB insistiu em lançar o Kassab, mesmo sabendo que ele tinha mais rejeição e menos intenção de voto do que os eleitores. Agora o Alckmin, abandonado pelo partido, parte para ataques contra o Kassab de maneira um tanto infantilizada. De outro lado, a Marta está se superando na quantidade de propostas populistas, mirabolantes e - pior ainda - inviáveis sem um grande aumento de tributação ou a reintrodução das impopulares taxas que pontilharam sua campanha - não é à toa que ela ganhou, com justiça, a alcunha de "Martaxa". E o Paulo Maluf, que mesmo após todos os escândalos em que esteve envolvido e de saber que mais de 50% dos eleitores não votam nele, ainda insiste em disputar as eleições.

Voltemos ao metrô. Qualquer pessoa que entende um mínimo de planejamento urbano sabe que o desenvolvimento da cidade deve ser por igual. Em São Paulo, a quase totalidade dos empregos estão na área conhecida como Centro Expandido e nos distritos que fazem divisa com essa área, deixando as outras áreas da cidade - a conhecida periferia - funcionando basicamente como região dormitório. Desta maneira, as empresas obrigam muitas vezes o empregado a acordar de madrugada para ir trabalhar, sendo que ele tem que pegar o metrô lotado, sentindo-se durante o período todo como uma sardinha enlatada, e às vezes sofrendo com os "soquinhos" do metrô; pela quantidade de trens e de passageiros que bloqueiam o fechamento das portas - muitas vezes nem por culpa deles - os trens vão devagar e atrasam.

Engana-se quem pensa que colocando mais metrô na periferia o problema resolve. Vai lotar do mesmo jeito, e o funcionário não vai demorar menos tempo para chegar no trabalho. Imagine-se por exemplo quem mora em algum bairro como Cidade Tiradentes e tem que trabalhar em Santo Amaro - para quem não é de São Paulo, pode ter idéia de ser uma distância grande. Para os cariocas, a distância desses bairros é como a do Recreio dos Bandeirantes até a Pavuna, e para os curitibanos, equivale mais ou menos ao dobro da distância entre Santa Cândida e o Sítio Cercado. Não existe solução mágica para o problema de mobilidade urbana deste cidadão, e tem muitos nessa situação. A solução é conceder fomentos fiscais para trazer as empresas para a periferia, e não deixar uma região só para moradia proletária e outra só para os empregos. Esta é uma lógica de segregação sócio-espacial existente em São Paulo que beira o absurdo; é por isso que temos tantos congestionamentos.

Pois bem, a candidata Marta nessas eleições, com o claro motivo de fazer populismo, prometeu levar o "metrô para a periferia". Ela já começa a errar quando diz onde as estações vão ser construídas; não é da alçada da prefeitura decidir isto. No máximo, a prefeitura pode entrar com verba. Mas o problema pior é o de desconhecer a realidade de quem mora nessas regiões. Por exemplo, ela quer estender a Linha 3 da Barra Funda para a Freguesia do Ó, sendo que já existe o projeto da Linha 6 que vai ligar a Freguesia do Ó às regiões mais visitadas pelos moradores dessa região. Fazer isto vai causar uma superlotação tão grande na Linha 3 com o excesso de conexões que eles vão fazer que uma hora o metrô vai acabar parando.

Como diz a propaganda eleitora: cuidado. O prefeito que vamos escolher vai ficar na cidade por quatro anos. E quatro anos é muito tempo.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Aposentando o Windows

Agosto de 2007. Montei meu escritório e levei o velho computador de casa com Windows XP para lá, e comprei um novo para a minha casa, rodando o Windows Vista Home Premium, o fabuloso novo sistema da Microsoft. Antes de instalar o computador lá, tomei o cuidado de formatá-lo. Quando fui reinstalar o sistema, não instalava. O CD já estava muito gasto. Foi aí que tive a idéia de instalar o Linux. Como até então eu nada entendia de Linux, resolvi experimentar a distribuição Kurumin, que haviam indicado como uma distribuição brasileira boa para iniciantes.

A experiência foi rude. Eu não conseguia instalar nenhum programa que não fosse pelos "ícones mágicos". Os programas que eu baixava dos repositórios da Internet vinham todos com a extensão .tar.gz - com a fonte do arquivo que deveria ser compilada. Na hora de compilar, sempre faltavam dependências e o programa nunca rodava. Os sites da Internet... que tristeza. As fontes todas desproporcionais, alguns sites com banners expansíveis em Flash estavam cheios de bugs... definitivamente, o Linux só estava servindo como um sistema para "quebrar o galho", durante o tempo que eu usei. Eu não estava disposto a pagar uma licença para o Windows, e minha máquina era velha demais para suportar o Vista - comprar o XP não compensava, porque em breve seria descontinuado.

Pensei que talvez o problema não fosse propriamente o Linux, mas sim o Kurumin, já que, como o Linux é um sistema livre, tem várias outras distribuições. Aí eu resolvi experimentar o Mandriva, que era uma distribuição mais bem suportada pelo mercado. Foi aí que eu comecei a notar as diferenças: havia programas suficientes nos repositórios oficiais, de modo que praticamente não precisava baixar fontes e compilar; e mesmo assim havia alguns pacotes fora dos repositórios voltados para o Mandriva e outras distribuições comerciais. Havia até um programa livre para composição musical, o Rosegarden - para quem é compositor, como eu, é uma mão na roda não ter que pagar a salgada licença do Finale ou usar o limitado Encore, ambos para Windows. Fiquei usando o Mandriva no escritório ainda por cerca de seis meses, até que uma atualização de um driver da Nvidia começou a impedir que a interface gráfica fosse carregada. Mesmo com inúmeras reinstalações, o problema persistia. Por isso, pensei em trocar novamente de distribuição.

Um amigo meu, ainda da época do colégio, me indicou outra distribuição do Linux, o Ubuntu. No site DistroWatch, o Ubuntu aparece como a mais usada de todas as distribuições, e nos fóruns e tutoriais da Internet de fato a distribuição mais focada era o Ubuntu. Ainda uma característica interessante: eu podia experimentar em casa o sistema sem a necessidade de reparticioná-lo, através de um utilitário chamado Wubi (Windows Ubuntu Installer). Assim como o Mandriva, havia programas aos montes nos repositórios, para todo tipo de necessidade. Em casos mais extremos, existe um emulador chamado Wine, que permite rodar os programas do Windows no Linux, só que em geral não rodava os programas de que eu precisava.

O tempo foi passando e eu percebi que estava usando mais o Linux do que o Windows, mesmo em casa. Depois que me acostumei, comecei a não ter mais paciência com o Windows: trava do nada, é mais vulnerável a vírus e precisa ter um programa anti-vírus rodando na inicialização, deixa a máquina mais pesada... mas eu ainda precisava do Windows para algumas coisas, que não havia para Linux. Sem contar que havia certos sites na Internet que só funcionavam no Windows, por causa de um bug no Flash que impedia que as animações com transparência fossem exibidas corretamente.

Até que, finalmente, nesta semana, duas grandes notícias surgiram: depois de 15 anos, a versão final do Wine saiu. Alguns jogos de que eu gosto e eram para Windows - uma das razões que ainda me prendiam ao Windows - rodavam no Linux via Wine com melhor desempenho que no próprio Windows. E o maldito problema com as transparências no Flash também foi definitivamente solucionado, com o Beta 2 do Flash Player. Agora, todos os sites na Internet (ou pelo menos, a imensa maioria) rodam perfeitamente no Linux. Outros recursos de que eu sentia falta em alguns aplicativos como o Excel também já estão presentes nas versões mais novas dos equivalentes - no caso, o Calc.

Depois destas notícias, chego à conclusão que já está na hora de eu aposentar o Windows, que até pouco tempo atrás eu julgava insubstituível. Durante muito tempo o Linux não saia do 1% de uso, e de fato estava funcionando apenas como um "sistema alternativo"; porém agora, em 2008, é que o sistema se revela efetivamente maduro para uso cotidiano. A maioria das coisas que se faz no Windows com programas pagos, também é possível fazer no Linux, só que com programas gratuitos: desde editar textos até editar partituras, passando por planilhas, gerenciamento de projetos, cálculos estatísticos, sistemas ERP, edição de vídeo, gravação de CD, desenvolvimento de aplicativos, e até coisas muito longe do trivial, como cálculo de mapa astral (!) - e quase todos esses aplicativos compatíveis com as versões comerciais, para Windows.

Durante muito tempo, o Linux pegou a fama de ser um sistema operacional complicado, difícil, que demorava para ser instalado, etc. Mas isso hoje em dia não é mais verdade. Só algumas distribuições para usuários avançados como o Slackware e o Gentoo são assim. A maioria das distribuições modernas como Ubuntu e Mandriva, inclusive, rodam o desktop direto do CD e basta rodar um programa que o sistema instala sem problemas: em modo gráfico, e já reconhecendo todos os drivers e dispositivos instalados. Sem contar que é um sistema muito mais flexível e personalizável: enquanto no Windows somos obrigados a usar sempre o mesmo gerenciador de janelas e as mesmas decorações, como aquela coisa tosca do Windows XP com as "incríveis" três opções de esquemas de cores - azul, prateado e verde-oliva; no Linux existem vários gerenciadores de janelas (KDE, Gnome, Xfce, Window Maker, etc.) que podem ser personalizados não só quanto as cores, com opções ilimitadas, mas também quanto aos demais elementos como decorações de janelas, ícones e disposição dos painéis e mini-aplicativos. E quem não gostar dos temas disponíveis, pode criar o seu próprio e redistribuí-lo. Quem quiser pode, inclusive, criar sua própria distribuição com suas próprias personalizações.

Admito que sempre fui fã do Bill Gates, e reconheço que foi graças a ele e ao Windows que a computação virou parte do cotidiano das pessoas, mas isso não significa que o sistema da Microsoft seja sempre o melhor. É verdade que existe ainda as vantagens de se usar Windows, como o suporte técnico da Microsoft e a falta de necessidade de ligar para o banco para desabilitar o módulo de proteção que só funciona no Windows e eles insistem em mandar instalar, mas é preciso olhar também para ver se as vantagens compensam as inúmeras desvantagens.

sábado, 17 de maio de 2008

Der Freischütz em São Paulo

Demorou, mas aconteceu. Finalmente, quase dois séculos depois, tivemos a estréia da ópera Der Freischütz (em português, "O Franco Atirador"), de Carl Maria von Weber, em São Paulo. É uma ópera histórica, importante por ter inaugurado o Período Romântico e por ter fixado pela primeira vez a estética de uma escola musical tipicamente alemã, afastando-se da tradição italiana até então em voga.

A ópera narra a história de Max, um caçador considerado o melhor da floresta que fora prometido a Agathe, filha de Kuno, o mais velho dos caçadores, mas para obter a permissão para se casar com ela, ele deveria acertar um alvo em uma prova de tiro que acontecia anualmente. Max foi, então, seduzido por Kaspar, um outro caçador, que lhe apresentou algumas balas mágicas, que acertariam o alvo de qualquer maneira. Entretanto, Kaspar fizera um pacto com o diabo para consegui-las. Eram obtidas sete balas. Das sete balas, seis acertariam o alvo, mas a sétima pertencia ao diabo, que poderia direcioná-la para onde ele quisesse. Apaixonado e movido pelo desespero, Max acaba participando do ritual de enfeitiçamento das balas - sem saber que a sétima bala era a bala do diabo. Assim, no dia da prova de tiro, Max - que já gastara as outras seis balas - dispara contra um alvo e Agathe desmaia. Parece que o tiro a acertou. Mas Agathe está viva e o tiro na verdade havia acertado Kaspar. O feitiço se voltara contra o feiticeiro. Pressionado pelo príncipe Ottokar, que presidia a prova de tiro, Max confessa que caiu na lábia de Kaspar e é banido do reino. Mas a intervenção de um eremita, que era adorado como um Deus na aldeia - inclusive pelo príncipe - faz o príncipe recuar e Max passa a ser vigiado por um ano e, se permanecer na virtude, poderá se casar, enfim, com sua amada Agathe.

A estréia paulistana foi estrelada pelo veteranto tenor Rubens Medina interpretando Max, a soprano Taís Bandeira interpretando Agathe, a graciosa soprano Gabriela Rossi interpretando Ännchen (uma amiga de Agathe que, embora seja personagem secundário, tem uma algumas árias muito bonitas no segundo e no terceiro ato), o barítono Saulo Javan interperetando Kuno, o também barítono Amadeu Góis interpretando o príncipe Ottokar, o baixo Eduardo Abumrad interpretando o eremita, o ator Marcelo Palmares interpretando Samiel (o diabo) e o barítono José Jessé Vieira interpretando o caçador novato Killian, que aparece na cena de abertura da ópera. A regência e direção musical foi de João Maurício Galindo, a direção artística foi de Alexandre Tallingher, a direção de produção foi de Ângela Dória e a direção geral foi de Mauro Wrona.

Eu já assistira a duas montagens em vídeo desta ópera, ambas muito chinfrins. Eu tinha um duplo receio nesta noite: a maioria das montagens a que assisti no Teatro São Pedro eram muito simplórias e eu não tinha motivo algum para achar que com esta ópera seria diferente. Além disso, eu estava acompanhado da Maria Fernanda, que assistia a uma ópera pela primeira vez. Se a montagem fosse fraca, além de correr o risco de não poder mais contar com a presença dela quando fosse assistir a uma ópera, teria que aguentá-la zoando comigo para o resto da vida por causa do meu "mau gosto".

Mas eu estava enganado. Além da bela voz de todos os cantores, também os cenários e figurinos estavam impecáveis. Foi de um imenso bom gosto o jogo de luzes mostrando as estrelas em meio as árvores, na ária de Agathe do segundo ato, e foram impressionantes também os difíceis efeitos especiais com luzes e fumaças na cena em que Kaspar enfeitiça as balas. Até mesmo os detalhes mais específicos do cenário e dos figurinos, como a relva do piso, os chapéus emplumados típicos da Boêmia (onde a ação da ópera se passa), o traje das damas de honra de Agathe - uma delas era a minha amiga Flávia Tunchel, bacharel em canto lírico pela Unesp - e a mobília da casa de Kuno foram muito bem cuidados. Os ecos sinistros da voz de Samiel também foram magnificamente bem trabalhados.

Pelo menos, se São Paulo demorou quase dois séculos para receber esta ópera, ao menos a produção foi de primeira qualidade. E principalmente dá ânimo de notar que a maioria dos que participaram é gente jovem, um sinal de que a ópera também está começando a se firmar no gosto do brasileiro.

terça-feira, 25 de março de 2008

Eleições para a prefeitura

Este ano, como todos sabem, acontecerão as eleições para prefeito em todas as cidades do Brasil. Uma coisa que tem me impressionado bastante é a facilidade como os partidos no Brasil têm para se coligar ou se tornarem inimigos mortais, dependendo unicamente das circunstâncias. Em São Paulo, está uma briga no PSDB para ver se apóiam Alckmin ou Kassab, mas uma coisa é certa: qualquer que seja o candidato apoiado, será de oposição à candidata Martaxa Suplício, do PT. Já em Minas Gerais, estão discutindo uma possível aliança PT-PSDB. Bastante curioso tudo isso...

Há dias atrás, durante um tempo disponível que eu tive, fui observar os programas políticos de todos os partidos brasileiros, um por um. Chegamos a uma surpreendente conclusão: quase todos eles são "democratas", "progressistas", "trabalhistas", "sociais"... alguns são inclusive "cristãos"... isso explica o motivo de tantas coligações e oposições consecutivas. Como dizia um professor meu da faculdade, partido já é ruim por ser "partido", e não o "inteiro".

Observem, por exemplo, quantos partidos são estruturados para defender "o direito dos trabalhadores":

  • PTB - Partido Trabalhista Brasileiro
  • PTdoB - Partido Trabalhista do Brasil
  • PTN - Partido Trabalhista Nacional
  • PRTB - Partido Renovador Trabalhista Brasileiro
  • PDT - Partido Democrático Trabalhista
  • PSTU - Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
  • PTC - Partido Trabalhista Cristão

Há casos ainda que nem merecem menção, como o PT, que é "dos Trabalhadores" mas defende não os trabalhadores, e sim os pobres (tanto os pobres trabalhadores quanto os pobres vagabundos). E tem o bizarro caso do PCO, o Partido da Causa Operária, com aquele lema "quem bate cartão não vota em patrão". Quer dizer, os patrões são vistos sempre como os exploradores, os algozes, os carrascos, que sempre exploram o pobre trabalhador. Eles só se esquecem de um detalhe: são os patrões que garantem o sustento dos trabalhadores. Para eles, os empregados têm que ter direitos ilimitados e os empresários têm que ser sempre prejudicados. Notável...

Outro caso bastante estranho ainda é o dos partidos "republicanos". Temos três com esse nome: o PRB (Partido Republicano Brasileiro), o PR (Partido da República) e o PRP (Partido Republicano Progressista). Que sentido faz um partido "republicano" nos dias atuais? Isso só seria justificável se houvesse um partido "monarquista", que não existe.

Existem também os que são "democráticos". Inclusive tem um cujo nome se restringe a "Democratas", o famigerado DEM. Alguém conseguiria imaginar um partido "totalitário" ou "ditatorial"? Imaginem: "PST - Partido Social Totalitário", ou "PTD - Partido Trabalhista Ditatorial". Parece algo meio estranho...

É precisamente por todos esses motivos que no Brasil não se pode ser simpatizante de um partido especificamente. Os ideais são muito parecidos, todos eles são movidos sempre pela conveniência política, e no final das contas estão mais preocupados consigo próprios do que com o povo. Com raras exceções.

Infelizmente, nem adianta fazer uma campanha contrária ao voto de legenda, porque como estão lembrados há anos atrás, o Enéas, do extinto PRONA, foi o deputado mais votado de São Paulo e por causa do coeficiente partidário, levou consigo outros deputados que tinham apenas algumas centenas de votos, somente por causa do partido.

Por essa razão, nem tanto para as eleições para prefeito, mas para as eleições para vereadores, pouco importa em quem votemos. De uma forma ou de outra, sempre vamos acabar involuntariamente enfiando inúteis na câmara dos vereadores, até que haja uma completa reforma no sistema eleitoral brasileiro. E depois ainda dizem que somos uma democracia plena...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Quando a razão dissipa a ilusão


Em outro artigo que escrevi, meses atrás, falei sobre os males que afligem o ser humano, além da pobreza. Tenho achado notável que em muitos casos de pessoas conhecidas a carência maior não é de dinheiro, e sim de uma pessoa amada, por quem alguns sacrificariam mesmo o dinheiro que têm. É por isso que eu acho os índices de desenvolvimento humano falhos, na medida em que não calculam a felicidade de um povo observando todos os fatores, inclusive aqueles que não dependem do governo resolver, como este. Esses fatores são muito relativos em termos culturais. O que pode representar desenvolvimento numa sociedade, não representa em outra.

Esquecem-se as pessoas, também, de que do mesmo jeito que a prosperidade vem, a prosperidade também vai. Assim é com o amor, também. Quando estamos apaixonados, tudo nos parece belo. Parece que flutuamos sobre a terra, que nada é capaz de nos abalar. Porém, uma vez que termina, sentimos como se o chão abrisse sob nossos pés e fôssemos lançados num precipício. E vários são os fatores que põem fim a isso.

Tenho observado que essas coisas andaram acontecendo com amigos e com parentes próximos, mas eu inclusive vivenciei uma situação como esta, há não muito tempo atrás, e vou citar como exemplo.

Em agosto de 2007, a pessoa de quem eu mais gostava era uma amiga muito querida, que vivia em Goiânia mas se encontrava comigo sempre que possível quando vinha fazer compras em São Paulo, com sua mãe. É uma moça com quem eu cultivei uma sólida e bonita amizade, aparentemente incapaz de abalar qualquer coisa. Até que um dia caiu meio que de pára-quedas uma moça na minha vida, pela qual eu me apaixonei. Uma moça oriunda do Vale do Paraíba e criada numa cidade pequena do sul de Minas Gerais, que estava morando com a irmã em Santo André, na região metropolitana de São Paulo. Era uma moça muito bonita, de pele amorenada e cabelo avermelhado, bastante dengosa, com trejeitos graciosos, voz lânguida e um olhar que ora era terno, ora era sensual. Um tipo de moça capaz de fazer qualquer homem se apaixonar por ela.

No início ela se demonstrava tão apaixonada por mim e com tamanho temor de me perder que começou a forçar meu afastamento de outras pessoas que eu gostava, especialmente a minha amiga de Goiânia. Tamanha era a irracionalidade dessa paixão dela que eu comecei a ceder. Eu à época era capaz de sacrificar minha própria carreira e meus projetos de vida se isso fosse necessário para ficar com ela. Mas para ela nada disso bastava. "Você é todinho meu", dizia ela, incontáveis vezes. É uma frase de retórica muito usada entre namorados, mas no caso dela a questão era mais séria. Ela usou todas as armas possíveis, deliberadamente, para que eu me apaixonasse por ela. Conseguiu. E quando percebeu que eu estava disposto a deixar tudo em nome do amor dela, ela começou a criar pretextos para se afastar de mim. Quem temia perdê-la agora era eu. Um dia depois da última conversa que tive com ela, ela já estava com outro rapaz. O único sinal dela que restou foi o contato dela na Internet, onde ela insistia em mostrar no avatar dela do Messenger a foto do novo namorado dela, com o deliberado propósito de me magoar. Soube que eles acabaram rompendo pouco depois, pelo mesmo motivo. A paixão louca que eu sentira por ela se converteu em cólera. Em vez de querê-la de volta, eu passei a amaldiçoá-la com todas as minhas forças. Um sentimento negativo, anti-cristão, e do qual eu hoje me envergonho por ter sentido, mas hoje eu a perdoo, embora ela nunca mais tenha me procurado.

Tamanha dor, no entanto, foi positiva para mim. Tornei-me uma pessoa certamente melhor e menos vulnerável a paixões, e aquela amiga tão querida de quem fui afastado em função do romance, eu voltei a procurar. No início ela comparou a amizade a um objeto de cristal, que uma vez quebrado pode ser emendado mas não adquire o mesmo brilho. Mas em certos casos a comparação pode ser com uma barra de ouro, que uma vez desintegrada adquire um brilho ainda mais resplandecente do que antes. Eu estava iludido com a outra moça e perdi a razão. Hoje eu recuperei minha razão: única faculdade pela qual eu me senti capaz de perdoá-la e tocar minha vida, dando importância apenas àquilo que tem importância, e dando atenção às pessoas que merecem a minha atenção. Se ela aparecesse novamente, hoje eu poderia lhe dizer: "Quanto eu te amei, quanto eu te detestei, e quão grande foi o bem me fizeste através da dor que me causaste..."

Apesar de eu não gostar de contar histórias de ordem pessoal, talvez isso seja apenas uma amostra do que acontece com praticamente todas as pessoas que vivem neste mundo. Tenho amigos e familiares que passaram por situação semelhante, e quem nunca passou uma vez ainda há de passar. Isto serve ainda como uma demonstração de que as coisas na vida são sempre circunstanciais. Nada é definitivo, até o que nos parece mais estável. Podemos projetar e planejar nossa carreira, mas sabemos que existe uma chance de dar errado. Podemos ter um filho, educá-lo e prepará-lo, mas o destino às vezes pode pervertê-lo ou - pior ainda - até ceifar a vida dele antes da nossa. Por isso se diz que jamais devemos construir um castelo de sonhos. Sonhos não têm alicerces e o castelo pode desabar sobre a nossa cabeça. Assim como uma situação dolorosa também nem sempre é definitiva; uma hora pode estar fadada a se dissipar também. Até mesmo a nossa vida não é definitiva, pois a maioria de nós não sabe quando vai morrer. E quando a morte chega, pouco importa a vida que tenhamos levado: tudo o que tivemos aqui deixará de existir para nós.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Direitos Autorais

Com a recente revolução tecnológica, tem voltado constantemente à cena o debate a respeito da questão dos direitos autorais. Esse assunto tem vindo à tona em função da capacidade de se replicar o conteúdo independentemente da mídia física. Não pude deixar de achar notável a iniciativa do Partido Pirata, um partido político da Suécia que planeja extingüir os direitos autorais. Cada vez mais tenho visto pessoas defender a pirataria sob o argumento de que a indústria de software e fonográfica coloca o preço muito alto, o que inviabilizaria a "democratização" do conteúdo.

Acho interessante que as pessoas só querem consumir sem levar em consideração o trabalho que o autor teve para produzir. Afinal, a obra pertence ao autor - que trabalhou, produziu, gastou até dinheiro para isso - ou do público, que apenas consome? No meu entender, o artista ou programador tem primazia sobre o público. Ele tem por direito próprio decidir como a obra será distribuída e quanto quer receber por isso. É um direito legítimo.

Como compositor que sou, falo isso sem interesses próprios, até porque eu não me importo que ouçam e distribuam as peças que eu escrevo, desde que não saiam ganhando dinheiro com elas Fico até lisonjeado. Mas nem todos agem desta maneira e estão no seu direito. A arte humaniza as pessoas (em geral), mas não uma obra de arte em específico. Ninguém morre nem tem prejuízos financeiros por não escutar uma música muito bonita, ou ver um filme muito interessante. E se assim desejar, deve pagar por isso. Nós não pagamos por coisas essenciais como a comida, a bebida e a moradia? Por que, então, deveríamos obter de graça coisas que não são essenciais para a vida humana?

Uma tese bastante recorrente é que tudo o que é pago é melhor que as coisas gratuitas. Se isso fosse verdade, seria melhor um homem manter relações sexuais com uma prostituta do que com a mulher que ele ama. É verdade que a gratuidade é apenas financeira, já que o homem deve conquistar o amor da mulher, mas isso eu deixo para outro artigo. De qualquer maneira, temos aí a música clássica, de qualidade indiscutivelmente superior às modinhas musicais popularescas de hoje em dia. A música clássica caiu em domínio público e por isso pode ser distribuída livremente. As modinhas musicais popularescas estão sujeitas a direitos autorais e é crime reproduzi-las.

Temos também os softwares de código aberto que, por não ter as restrições e a comunidade de desenvolvedores ser muito menos restrita, são muito melhores que os softwares proprietários. A começar pelo próprio Linux, que, ao contrário do Windows e do Mac OS, tem inúmeras distribuições para todos os gostos: usuários domésticos, técnicos, desenvolvedores, artistas, jogadores... tudo quanto é perfil de usuário que podemos imaginar. A grande maioria delas é bastante flexível, personalizável, e com a vantagem de rodar a maioria dos programas escritos para o Windows, através de camadas de compatibilidade como o Wine. Mas mesmo assim ainda muita gente prefere adquirir programas piratas, muitas vezes sustentando a máfia dos camelôs, e ainda por cima acusando a Microsoft de querer dominar o mercado e cobrar muito caro pelas licenças de software, sendo que o que a Microsoft faz é perfeitamente legítimo e dentro das regras de mercado. Não só a Microsoft como também a Adobe, a Corel, a Coda Software e tantas outras empresas comerciais, cujos produtos na maioria dos casos têm equivalentes de código aberto compatíveis e tão bons quanto os programas comerciais.

O mesmo acontece com os livros. Os autores que querem se fazer ouvir, ou até se tornar célebres, hoje em dia estão recorrendo mais à Internet. Agora, se querem ser lidos só por aqueles que têm dinheiro, então que coloquem um preço bastante exorbitante nas tiragens e impeçam por meio da lei a reprodução por qualquer tipo de meio. Quanto aos vídeos, hoje em dia a Internet já concorre com a televisão tradicional. Lembrem-se do caso do Tapa na Pantera, dos vídeos do Guilherme Zaiden, que são todas coisas que se tornaram populares porque os autores não cobraram para a divulgação. Existe também a Desciclopédia, que é um wiki humorístico, com a ressalva de que pelo fato de qualquer um poder postar o que quiser lá às vezes acabam pegando pesado (confesso, inclusive, que eu fui expulso de lá como um "emo politicamente correto" porque comecei a apagar textos e imagens anti-semitas), mas nem por isso deixa de existirem tiradas humorísticas geniais por lá. Tudo bem, são coisas humorísticas e populares, mas que em termos de qualidade são às vezes até mais engraçados que os humorísticos da televisão convencional.

Tendo em vista da qualidade das coisas gratuitas frente às coisas proprietárias, nós constatamos que a pirataria é algo, no mínimo, ridículo. Se fosse alguém querendo cobrar taxas exorbitantes para curar enfermos que, do contrário, morreriam, seria realmente algo bastante sério. Mas software, livros, músicas, vídeos... não é questão de vida ou morte não ter essas coisas. Como eu já disse, são coisas que ou são úteis na produtividade, ou humanizam as pessoas... e o que há de melhor nisso, é gratuito. E se assim é, para quê piratear?