O país mais belo do mundo
Já faz muito tempo que não escrevo. Estive ocupado com o TCC da pós-graduação até esta última semanae tenho tido um grande acúmulo de trabalho recentemente; época de fechamento de ano, auditorias internas em clientes, o anuário da NTC&Logística, tabulação estatísticas do Prêmio Fornecedores do Transporte... enfim, o tempo que eu tenho é muito mais voltado para o lado profissional do que para o lado pessoal.
Porém, agora que estou encontrando um pouco de tempo disponível, quero escrever um pouco sobre as experiências que tive na Europa, recentemente. Tirei um período de férias de 20 dias e viajei por alguns países, dos quais falarei brevemente, mas vou reservar um tempo maior para um país em específico.
O primeiro país que conheci foi a França, e também o país onde eu passei mais tempo. Visitei Paris, que realmente merece o epíteto de “Cidade-Luz”, porque pela cidade inteira se encontram muitas das grandes riquezas da história mundial. Passei um dia inteiro visitando o Museu do Louvre, também subi no alto da Torre Eiffel – o local onde senti a maior ventania de toda a minha vida, visitei a Montmartre, a Avenue des Champs Elysées, o palácio de Versailles – que é de uma grandeza incomensurável; enfim. É verdade que o parisiense é um pouco seco no tratamento, mas não me importei com isso, porque o mundo inteiro sabe que eles são assim; e nem mesmo isso tira o encanto da cidade. O famoso metrô de Paris também tem uma eficiência de deixar qualquer paulistano impressionado. Não é muito confortável nem mesmo bonito, mas é extremamente eficiente e em qualquer lugar da cidade é possível chegar com, no máximo, uma conexão. Isto sem contar que há um relógio fazendo a contagem do tempo entre uma composição e outra, que chega pontualmente na hora – nem um segundo de atraso.
Fora de Paris, também visitei o Vale du Loire – fiquei hospedado em Amboise, numa pousada na frente do Château d'Amboise, onde está sepultado o corpo de Leonardo da Vinci. Também visitei os castelos de Chenonceaux e de Chambord, além do Clos Lucé. O tamanho do luxo e da riqueza destes lugares impressiona qualquer um, e aí nós começamos a observar de perto as razões por ter eclodido a Revolução Francesa. O luxo é muito maior do que qualquer um que não tenha ido até lá consiga imaginar, mas o povo da época passava fome. Lá eu tomei consciência de que todos os problemas que assolaram o mundo desde a Idade Moderna até agora decorreram, direta ou indiretamente, do esbanjamento da nobreza enquanto o povo vivia na penúria. Não era somente na França. Esse tipo de esbanjamento e concentração – inicialmente na nobreza, depois na burguesia – desencadeou todas as guerras mundiais e revoluções. Até mesmo os comunistas na Rússia ascenderam ao poder porque o czar esgotou todos os recursos do país para construir a ferrovia Trans-Siberiana. Somente nos tempos atuais as condições têm melhorado. Vemos o exemplo de desenvolvimento que é a França nos dias atuais, mas temos de lembrar que nem sempre foi assim. Apenas durante um período no século XIX (a famosa “belle époque”) e de cerca de 50 anos para cá, quando acabou a Segunda Guerra Mundial, a França gozou de prosperidade.
Outra cidade pela qual passei na França foi Limoges, onde assisti a um show – ao vivo – do violinista André Rieu. Foi um espetáculo a que há muito tempo eu tinha vontade de assistir, já que sempre fui fã dele.
Fora da França, também estive em Veneza, na Itália. Sendo eu descendente de italianos – e particularmente de venezianos, embora remotamente – tive uma sensação muito estranha por lá. Não somente pela própria organização da cidade – certamente uma das mais estranhas do mundo, pois lá somente é possível andar a pé pelas numerosas vielas pedonais, praças, pátios e galerias subterrâneas, ou então de barco, pelos numerosos canais marítimos que cortam a cidade, em meio às ruas pedonais, de modo que algumas vezes ao cruzar uma ponte sobre um canal caímos em uma galeria subterrânea ou em um pátio cercado por casas. Mas a sensação “estranha” a que me refiro foi o fato de estar tão próximo da minha origem étnica, mas ao mesmo tempo tão longe da minha casa. A saudade bateu forte lá. Ouvir falarem em italiano, jantar nos restaurantes de lá, é algo que, paradoxalmente, remete-me a São Paulo e à minha infância, na Mooca. Mas os italianos de lá não eram minha avó, meu avô, os antigos vizinhos da vila onde minha mãe foi criada... foi algo verdadeiramente nostálgico.
Também estive de passagem pela Alemanha. Cruzei todo o estado de Baden-Württenberg e da Baviera, mas não tenho muito o que falar de lá porque não tive tempo para passear por lá. Apenas cruzei cidades – aos montes: Stuttgart, Ulm, Biberach, Augsburgo, Munique, Traunstein – mas não andei dentro destas cidades. Do que eu vi, nada que tenha me surpreendido, fora pelo fato de eu não ter visto uma única casa no estilo enxaimel bávaro, como as do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. De pontos turísticos, apenas passei ao lado da Marienskirche, em Munique. De trem.
Mas o país a que se refere o título do tópico não é a a Alemanha, não é a Itália e também não é a França (embora a França, no meu conceito, credencia-se a um honroso segundo lugar). O país a que eu me refiro no título do tópico é a Áustria.
Ouso dizer que a Áustria é um pedaço de chão onde Deus escolheu para colocar tudo o que há de mais belo neste mundo, tanto em termos de paisagens naturais quanto de paisagens construídas pelo homem. Sem tirar o mérito de lugares naturais igualmente bonitos que temos em outros lugares do mundo, mesmo no Brasil, como o litoral de Santa Catarina e o Vale do Ribeira – para falar dos lugares que eu visitei, uma vez que nunca estive no Pantanal nem na Amazônia – mas acho muito difícil não se impressionar com as enormes montanhas dos Alpes, que se revestem de neve em boa parte do ano, sem contar nos belos bosques de coníferas e de caducifólias que tomam tons dourados e avermelhados no outono (época em que eu estive lá). A Áustria é um país sem saída para o mar, mas isto não quer dizer que não haja praias. Existem as praias lacustres, que margeiam lagos e lagoas espalhadas por todo o país, tais como o Mondsee – que além das praias, também estão na beira das montanhas.
Em termos arquitetônicos, também é altamente impressionante a beleza das construções. Visitei apenas três cidades: Salzburgo, Mondsee e Viena, e as três eram impressionantes. Salzburgo foi a terra onde nasceu Wolfgang Amadeus Mozart, o mais prestigiado compositor erudito de todos os tempos, e também onde viveu a família de músicos itinerantes Von Trapp, que se tornou famosa com o filme “The Sound of Music” (no Brasil, “A Noviça Rebelde”). Mondsee é uma cidade nas vizinhanças de Salzburgo cujas casas não diferem muito das casas de bonecas de brinquedos, mas que no interior das construções, principalmente da igreja matriz, nós vemos uma riqueza e uma grandiosidade descomunal.
E a cidade de Viena, capital austríaca, pode sem dúvida alguma receber o epíteto de “a metrópole dos sonhos”. Cotada entre as 10 melhores cidades do mundo para se viver pelo ranking anual elaborado pela Mercer Consulting, tem uma parte antiga formada por uma arquitetura riquíssima e bem característica. O centro histórico da cidade, do qual o ponto máximo é o Palácio de Hofburg, é um enorme calçadão e funciona como um shopping a céu aberto. Não há por lá exclusão social; mesmo a parcela mais pobre da população ainda vive muito bem. Eu visitei também a periferia vienense (onde fica o palácio de Schönbrunn); o que vemos lá são casas simples do período comunista; lembrando um pouco os conjuntos habitacionais do CDHU. Com ruas asfaltadas, limpas e sem emaranhados de fios. Há também uma parte moderna da cidade, na outra margem do rio Danúbio – tão imenso que parece um mar. O metrô (ou “U-Bahn”, como eles chamam) é composto por cinco linhas, mas que cobrem toda a cidade, e em vez de corredores de ônibus existe uma espécie de metrô leve, com três vagões, que circula numa pista com trilhos separada do trânsito principal.
Sendo historicamente a capital mundial da música clássica, a vida cultural é um sonho para todo amante da música de boa qualidade. A programação de concertos é quase diária. E além disso há programação de lazer para todos os outros gostos. A vida noturna não é das mais agitadas – o que talvez não seja uma desvantagem, já que ao menos os cidadãos podem em sua maioria dormir sem problemas de ruído causados por bares. E à noite podemos sair para onde quisermos, mesmo que ninguém haja na rua: temos a certeza de que ninguém vai nos molestar.
Porém, o que torna a Áustria um país ainda mais especial é o povo austríaco. Quem não conhece a Áustria geralmente tende a achar que os austríacos são frios, arrogantes e até preconceituosos, mas essa imagem é completamente falsa. O austríaco é até mais hospitaleiro que o brasileiro. No Brasil, em alguns casos há hospitalidade misturada com malandragem, mas lá não. Isto eu percebi logo ao chegar lá. Desembarcando em Salzburgo, perguntei informações sobre restaurantes e a recepcionista me indicou um lugar. Tive de perguntar informações a terceiros, misturando inglês e alemão. Um deles me indicou a direção por meio do cartão, mas eu não entendi. Percebendo que eu estava perdido, ele me fez entrar no carro e me deu carona até o local. Na rua, também qualquer pessoa se prontifica a dar informação – às vezes até “desenhando”, se for necessário. Eles não medem esforços para se fazerem comunicar com outros. E também fiz amizade com uma senhora da região da Caríntia, no sul da Áustria, que eu conheci no trem, no caminho para Veneza. Um mês depois de que eu voltei ao Brasil, recebi presentes que ela me enviou via correio, e até hoje trocamos mensagens.
Uma das coisas de que eu aprendi nessa viagem é a de que não adianta querermos viver num país estrangeiro, sendo que todas as nossas referências estão aqui. Por melhores que a Áustria e a França sejam, aqui estamos na nossa casa e na nossa pátria, e, uma vez que estejamos fora, sentimos saudades da nossa terra natal. Em São Paulo convivemos com várias das vantagens que existem lá: muitos lugares turísticos, boa vida cultural, oportunidades de trabalho, enfim; mas também convivemos com alguns problemas típicos daqui que acabam por nos irritar às vezes. E nesses momentos, ao comparar a qualidade de vida lá e aqui, nada mais nos resta a não ser conformar-se com o fato de termos nascido cá, e não lá...